O romance de Hemingway e os limites de uma vida orientada pela busca permanente por prazer, novidade e distração.
Em 1926, Ernest Hemingway publicou O Sol Também se Levanta, romance que se tornaria um dos retratos mais precisos da chamada Geração Perdida. Cem anos depois, a obra continua surpreendentemente atual. Embora ambientada entre cafés parisienses, viagens pela Europa e festas espanholas, a narrativa fala de algo muito mais profundo: o esforço humano para preencher um vazio que insiste em permanecer.
À primeira vista, a história parece simples. Jake Barnes, jornalista americano vivendo em Paris, circula entre amigos expatriados que passam os dias bebendo, viajando e buscando novas experiências. No centro da trama está sua relação com Brett Ashley, mulher independente, sedutora e emocionalmente inacessível. Ao redor deles, multiplicam-se romances, conflitos e deslocamentos geográficos.
Mas Hemingway está interessado em algo além dos acontecimentos. Seu verdadeiro tema é a incapacidade de encontrar sentido depois que as grandes certezas desapareceram.
A Primeira Guerra Mundial havia abalado a confiança de toda uma geração. Milhões de jovens retornaram do conflito carregando traumas físicos e psicológicos que a sociedade da época mal conseguia compreender. As narrativas tradicionais sobre heroísmo, patriotismo e progresso pareciam insuficientes diante da destruição testemunhada nas trincheiras.
É nesse contexto que surge o mundo de Jake Barnes. A guerra não aparece apenas como pano de fundo da narrativa. Ela continua presente nos corpos, nos relacionamentos e na forma como os personagens experimentam o desejo. É justamente aí que a psicanálise oferece uma chave de interpretação.
A ferida sofrida por Jake durante a guerra não funciona apenas como uma limitação física. Ela simboliza uma ruptura mais profunda. Freud observou que certos traumas não permanecem no passado – eles continuam organizando silenciosamente a vida psíquica do indivíduo, moldando desejos, escolhas e relacionamentos.
Jake vive exatamente essa condição. Sua existência parece estruturada em torno de uma perda que não pode ser reparada. O amor que sente por Brett é atravessado por essa impossibilidade fundamental. O relacionamento dos dois se transforma, então, numa metáfora do próprio desejo humano.
Para o psicanalista francês Jacques Lacan, o desejo nasce da falta. Não desejamos aquilo que possuímos plenamente; desejamos aquilo que nos escapa. Sob essa perspectiva, o vínculo entre Jake e Brett não se sustenta apesar da impossibilidade – ele se sustenta por causa dela.
Isso explica uma escolha narrativa que poderia parecer apenas sentimental: Jake não se afasta de Brett. Ele a acompanha, facilita seus encontros com outros homens, permanece disponível. Numa leitura superficial, esse comportamento poderia sugerir resignação. Porém, pelo viés lacaniano, revela outra coisa: Jake precisa que Brett permaneça inacessível. A aproximação plena dissolveria o desejo. A distância o sustenta. E é esse mesmo mecanismo que conecta Jake aos demais personagens: todos perseguem experiências que prometem preencher algo, mas organizam suas vidas de modo que o preenchimento nunca ocorra.
Os personagens bebem excessivamente, iniciam romances passageiros, mudam de cidade e buscam incessantemente novos estímulos. Ainda assim, terminam sempre no mesmo lugar emocional. Paris não resolve. Pamplona não resolve. Os novos relacionamentos não resolvem. Hemingway parece descrever aquilo que Freud chamou de compulsão à repetição: a tendência de reviver um conflito sem jamais solucioná-lo.
O livro escancara a ilusão de que a felicidade estará sempre na próxima experiência.
Brett Ashley oferece talvez o exemplo mais interessante dessa dinâmica. Sua liberdade não é apenas transgressão social; é um experimento. Ela elimina as restrições que, supostamente, impediriam a felicidade: escolhe seus parceiros, rejeita obrigações e recusa papéis fixos. E ainda assim chega ao mesmo lugar que Jake. O que o romance sugere, através dela, é que o vazio não é produto das circunstâncias. Brett removeu as circunstâncias – e o vazio permaneceu.
Ao longo do século XX, pensadores como Viktor Frankl argumentaram que o ser humano necessita de propósito tanto quanto de prazer. Quando a busca por significado é substituída pela busca exclusiva por sensações, instala-se o vazio existencial. Os personagens de Hemingway possuem mobilidade, recursos e entretenimento. O que lhes falta é uma razão suficientemente forte para orientar suas vidas.
É essa ausência que torna o romance tão atual. Talvez a grande pergunta levantada por Hemingway não seja apenas sobre uma geração traumatizada pela guerra, mas sobre qualquer sociedade que confunda abundância de experiências com plenitude de existência.
Nossa época oferece mais opções de consumo, lazer e conexão do que qualquer outra na história. Ainda assim, para muitos, a sensação de insuficiência persiste. Indicadores de solidão, ansiedade e vazio continuam crescendo em diversas partes do mundo.
Ao final, O Sol Também se Levanta permanece relevante porque revela algo desconfortável: o problema raramente está no mundo que nos cerca. Com frequência, ele está dentro de nós e na expectativa de que o mundo resolva questões que pertencem à nossa própria vida psíquica.
Cem anos depois, a pergunta permanece aberta. Em uma sociedade cada vez mais especializada em oferecer distrações, talvez o desafio continue sendo o mesmo enfrentado por Jake Barnes: descobrir onde termina a busca por prazer e onde começa a busca por sentido.■
Escrito em homenagem ao centenário do clássico O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway (1926). Esse é o segundo artigo da série especial literária, iniciada por De quanta terra precisa um homem?, de Liev Tolstói (1886).
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