O País das Bets: Quando o Dinheiro Sujo Encontra a Ilusão do Dinheiro Fácil

A ascensão de um sistema paralelo de apostas, endividamento e circulação de dinheiro invisível no Brasil.

A regulação das apostas no Brasil não acompanhou a explosão das apostas esportivas online – as populares bets – que redesenharam a paisagem econômica e social brasileira em velocidade impressionante. Por trás do espetáculo de marketing, futebol, influenciadores e cifras bilionárias, existe uma engrenagem menos vistosa e bem mais preocupante.

As inquietações vão muito além do vício: envolvem impactos econômicos, sociais, criminais e até institucionais. O Brasil corre o risco de ver essa indústria consolidar-se como um sistema financeiro paralelo, permeável à lavagem de dinheiro e capaz de comprometer a saúde financeira do comércio e das famílias.

A Velha Trama do Jogo que Nunca Saiu do Brasil

O jogo do bicho nasceu no Jardim Zoológico de Vila Isabel, criado por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, nos primeiros anos da República. O que começou como um simples sorteio atrelado ao ingresso do zoológico logo se transformou em uma rede de apostas complexa – e lucrativa.

Entre as décadas de 1920 e 1950, o jogo do bicho se tornou um dos principais focos de violência no Rio de Janeiro. As disputas entre “banqueiros” revelavam a estrutura organizada por trás da contravenção.

Nos anos 1970, os chefes do jogo perceberam que o dinheiro, sozinho, não garantia proteção institucional. Passaram a patrocinar desfiles de escolas de samba, numa aliança que uniu contraventores, cultura popular e política. O movimento consolidou os bicheiros como figuras de influência – e ajudou a moldar a imagem festiva e glamourosa do Carnaval carioca.

A história mostra como jogos de azar, entretenimento e círculos de poder frequentemente se entrelaçam em nosso país. Para entender as bets, é preciso compreender essa linhagem: do jogo do bicho aos cassinos, das máquinas caça-níqueis aos bingos, da Loteria Esportiva às plataformas digitais.

“Quando surge uma alternativa de jogo no seu telefone, disponível o tempo todo, a pessoa pensa: ‘Que legal! Nunca vi isso antes’”, afirma André Gelfi, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). O resultado? O Brasil se tornou o 5º maior mercado de apostas do mundo.

A Conta que o Brasil Paga: Como Bets Transformam Vulnerabilidade em Negócio

Sob o verniz de entretenimento e a promessa de dinheiro rápido, cresce um problema de saúde pública. Com marketing agressivo e, por vezes, enganoso, as plataformas são desenhadas para manter o jogador engajado – e perdendo. A verdadeira estatística é a do prejuízo.

Essa narrativa do “ganho fácil”, somada ao uso predatório de influenciadores e atletas, cria um terreno fértil para danos que atingem todas as classes sociais, mas recaem com força maior sobre as mais vulneráveis.

O impacto mais imediato aparece no orçamento familiar. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que o comprometimento de renda com apostas pode reduzir em até 11,2% a atividade varejista.

O endividamento segue a mesma linha. Segundo a fintech Klavi, 30% dos clientes bancários que buscaram empréstimos em 2024 usaram parte do valor para apostar. O efeito cascata inclui inadimplência crescente: em setembro de 2025, o indicador atingiu o maior nível da série histórica da CNC.

Outro dado alarmante vem do Tribunal de Contas da União: em janeiro de 2025, famílias com beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões às casas de apostas, equivalente a 27% de tudo que o programa distribuiu naquele mês. O dado expõe vulnerabilidade social e um déficit profundo de educação financeira.

Enquanto isso, o setor prospera. A Secretaria de Prêmios e Apostas informou que as 78 empresas autorizadas no país faturaram R$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2025.

A expansão das bets deixa de ser apenas um debate jurídico, econômico ou moral. É um problema de saúde pública, com impactos mensuráveis: transtornos associados ao jogo, ansiedade, depressão e endividamento crônico, alimentados por estímulos digitais contínuos e mecanismos de persuasão algorítmica.

Bets e o Sistema Financeiro Paralelo

As apostas online foram legalizadas no Brasil em 2018, mas a regulamentação só chegou em 2024. Após sete anos operando praticamente sem regras, a tentativa de trazer o setor para a formalidade esbarra no volume de dinheiro movimentado e na natureza fragmentada das transações. A dificuldade de rastreamento e controle é evidente: garantir fiscalização efetiva num mercado dessa magnitude e com histórico de informalidade continua sendo um desafio central.

O risco é que a indústria das bets, mesmo regulamentada, acabe funcionando como um duto de capital não rastreável, operando em áreas que escapam ao monitoramento tradicional do sistema bancário.

O fluxo massivo de transações rápidas, pulverizadas e frequentemente de baixo valor, somado à facilidade de movimentar quantias elevadas via Pix, cria um ambiente propício para que recursos circulem sem chamar muita atenção. Nesse ecossistema, valores ilícitos podem encontrar uma porta de entrada discreta: basta que sejam inseridos no sistema de apostas, movimentados de forma superficial e depois retirados como supostos “ganhos”, em uma tentativa de conferir aparência de legitimidade.

A utilização de CPFs de terceiros (“laranjas”) também amplia a opacidade, fragmentando o fluxo financeiro e dificultando a identificação do beneficiário final. Em paralelo, práticas como “apostas coordenadas” – quando grupos simulam resultados apenas para redistribuir valores – elevam o risco sistêmico e criam zonas de sombra dentro das plataformas.

O quadro se complica ainda mais com o uso de carteiras digitais de baixa regulação, intermediários informais e criptoativos que operam em zona cinzenta. Somados, esses elementos formam uma infraestrutura paralela em que o dinheiro pode circular rapidamente e se perder nas engrenagens digitais – uma roleta financeira conveniente para quem busca “limpar” valores com velocidade.

Entre Brechas e Bilhões: Por Que o Brasil Precisa Enfrentar o Problema Agora

As estratégias usadas para ocultar a origem de recursos em plataformas de apostas são variadas: vão desde o uso oportunista de contas para movimentar valores de forma dissimulada até esquemas mais sofisticados que envolvem manipulação de resultados e circulação internacional de recursos por meio de empresas sediadas em jurisdições de supervisão limitada.

Sem regulação robusta e fiscalização contínua, o setor pode se transformar no mais eficiente sistema financeiro paralelo já criado – e a lavagem de dinheiro é apenas o sintoma mais visível desse ambiente permissivo. Não por acaso, o mercado de apostas passou a ocupar posição central no radar de unidades de inteligência financeira em diversos países.

A vulnerabilidade das plataformas não ocorre porque elas “aceitam”, mas por conta do próprio desenho do modelo: alto volume transacional, grande número de pequenos valores, facilidade tecnológica e multiplicidade de intermediários. Assim, criam-se brechas fáceis de serem ser exploradas. E os impactos não se limitam ao setor financeiro: alimentam atividades criminosas, financiam o terrorismo e corroem a confiança nas instituições.

O debate sobre as bets precisa acontecer agora, antes que o país se acostume a conviver com um sistema paralelo que concentra lucros, amplia vulnerabilidades e transforma risco social em modelo de negócios.▪️

Referências:

  • Planalto: Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023
  • Portaria SPA/MF nº 1.143, de 11 de julho de 2024
  • Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/
  • Revista CGU: “Apostas e Lavagem de Dinheiro: Uma Análise das Bets” (Alessandro Fernandes e Sérgio Nojiri)
  • Portais: Valor Econômico, Exame, BBC Brasil e Gazeta do Povo

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