O Rei dos Bitcoins e a fé no dinheiro invisível

Como o golpe do Rei dos Bitcoins traduziu a velha pirâmide financeira para a era das criptomoedas

Nota editorial: Este artigo encerra a série Pirâmides Financeiras no Brasil, dedicada a analisar esquemas de fraude financeira recorrentes no país. Em conjunto com Avestruz Master e Boi Gordo, os textos mostram como esses modelos prosperam menos por inovação criminosa e mais pela repetição de falhas institucionais previsíveis.

O caso do Rei do Bitcoin marcou uma inflexão na história das pirâmides financeiras no Brasil. Pela primeira vez, a fraude dispensou matéria, produção ou qualquer promessa visível de lastro. Não houve boi, avestruz ou fazenda. O dinheiro não se via, não se tocava, não ocupava espaço. Circulou como ideia, como fé financeira travestida de inovação – e isso bastou.

No centro dessa história está Glaidson Acácio dos Santos, personagem que entendeu antes de muitos que a maior inovação das criptomoedas não é tecnológica, mas simbólica. O bitcoin, mais do que um ativo digital, é uma narrativa poderosa – descentralização, autonomia, liberdade em relação aos bancos e ao Estado. Uma linguagem técnica o suficiente para intimidar perguntas e sedutora o bastante para alimentar esperanças. As cripto não eram o golpe em si, mas o disfarce ideal. Glaidson não vendeu apenas rendimentos; vendeu pertencimento a um futuro que parecia reservado a poucos iniciados.

A promessa que dispensa matéria

O discurso era simples e sofisticado ao mesmo tempo. Enquanto o mercado tradicional oscilava, ali os ganhos eram constantes. Enquanto especialistas alertavam para riscos, ali havia método, algoritmo, inteligência. Não era preciso entender como funcionava – bastava confiar em quem dizia entender. A fé, deslocada do templo ou do Estado, encontrava agora abrigo no código e no jargão financeiro.

Esse deslocamento não é trivial. Diferentemente do Avestruz Master ou da Fazenda Boi Gordo, o Rei dos Bitcoins não precisava provar produção, criação ou esforço. O lucro não vinha do crescimento de um animal ou da lógica agrícola; vinha da própria circulação do dinheiro, invisível e autorreferente. O investimento deixava de ser trabalho ou aposta e passava a ser identidade. Quem entrava se via como alguém mais informado, mais atento, mais preparado para o mundo que viria.

A promessa não era de enriquecimento rápido, mas de inteligência superior. O golpe se protegia justamente por parecer racional. Questionar soava como ignorância tecnológica. Dúvida virava sinônimo de atraso. A linguagem técnica não esclarecia – ela blindava.

Quando a pirâmide se disfarça de comunidade

A pirâmide, claro, continuava lá. Rendimentos fixos, previsibilidade excessiva, ausência de risco declarado – os sinais clássicos estavam todos presentes. A diferença era estética. Escritórios bem apresentados, eventos presenciais, vídeos com tom motivacional e, sobretudo, a aura de modernidade. O golpe não se vendia como milagre, mas como competência. Não prometia riqueza fácil, mas método.

Cidades médias como Cabo Frio tornaram-se palcos ideais dessa encenação. Distantes dos grandes centros financeiros, mas conectadas às redes sociais e ao desejo de ascensão rápida, ofereciam o ambiente perfeito para que o Rei dos Bitcoins construísse sua corte. Carros de luxo circulando, relatos de conhecidos que “já estavam sacando”, líderes locais endossando o negócio. A confiança não vinha de auditorias independentes, mas do reconhecimento social imediato. Se funciona para quem está perto, deve funcionar para mim.

Nesse ponto, o golpe deixa de ser apenas financeiro e se torna relacional. O esquema já não se sustentava apenas pelos rendimentos prometidos, mas pelo laço criado entre os participantes. Investir deixava de ser uma decisão individual e passava a ser um gesto coletivo, reforçado por encontros, relatos de sucesso e reconhecimento mútuo. A pirâmide ganhava, assim, sua forma mais resistente – a de uma comunidade que se protege de qualquer dúvida. O pertencimento substitui o senso crítico.

O colapso do código e o velho roteiro

A queda, quando vem, segue o roteiro conhecido. A engrenagem só funciona enquanto novos recursos entram para sustentar os antigos ganhos. Quando o fluxo diminui, o castelo – ainda que digital – desmorona. A Operação Kryptos, conduzida pela Polícia Federal, revelou o que sempre esteve ali: um esquema clássico de pirâmide financeira, agora embalado em linguagem cripto. Contas bloqueadas, bens apreendidos, investidores tentando entender como algo tão “moderno” podia ser tão antigo.

Mas reduzir o caso à prisão de seu protagonista é perder o essencial. O Rei dos Bitcoins não é um desvio isolado; é um sintoma. Ele surge num ambiente de desconfiança crônica nas instituições, de culto ao empreendedorismo individual e de uma pedagogia social que insiste que enriquecer é menos uma questão de processo e mais de oportunidade – ou de esperteza.

Talvez o aspecto mais inquietante desse episódio seja justamente a naturalidade com que o golpe se atualiza. Se antes a fraude precisava cheirar a curral ou a fazenda, agora ela se apresenta como startup. O verniz muda, a lógica permanece – um padrão que já se repetiu outras vezes, com novas embalagens e a mesma confiança explorada. O país que desconfia do banco, mas acredita no “cara que entende”, continua vulnerável à figura do intermediário carismático, agora armado de termos técnicos e promessas algorítmicas.

No fim, o Rei dos Bitcoins cai como caíram seus antecessores. Mas o trono fica vago apenas por um instante. Em algum lugar, alguém já ajusta o discurso, atualiza o vocabulário e prepara a próxima versão do mesmo enredo. A pergunta que resta não é por que esses golpes acontecem, mas por que continuam funcionando tão bem. Em que momento decidimos que, se o dinheiro pode ser invisível, a confiança também pode ser?▪️

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