O poder da inteligência financeira na luta contra o crime
A asfixia financeira do crime organizado, sintetizada na expressão “Follow the money” – em português, “siga o dinheiro” –, surgiu no contexto do jornalismo investigativo e do combate à corrupção nos Estados Unidos, popularizando-se após o escândalo de Watergate, nos anos 1970. Em vez de buscar apenas personagens, a apuração passou a mirar fluxos financeiros.
O informante secreto conhecido como “Garganta Profunda” teria utilizado essa expressão para orientar os repórteres do The Washington Post, indicando que a chave para compreender o esquema estava no rastreamento de pagamentos e doações suspeitas que ligavam o Comitê de Reeleição de Richard Nixon às atividades ilegais. O dinheiro, não os discursos públicos, revelou a estrutura real do poder. Ao seguir esse rastro financeiro, os jornalistas chegaram a uma rede organizada de financiamento ilícito e encobrimento político que, até então, operava fora do radar institucional, culminando na renúncia de Nixon em 1974.
Por que a asfixia financeira é mais eficaz que o enfrentamento armado
Com o avanço das organizações criminosas transnacionais, as estratégias de inteligência financeira passaram a ocupar o centro das políticas mais eficazes de combate ao crime organizado. Na prática, a política tradicional de enfrentamento direto revelou um padrão recorrente: atinge operadores substituíveis, mas preserva as estruturas estratégicas. O bloqueio e o confisco de bens, ao contrário, incidem diretamente sobre o fluxo financeiro que sustenta a capacidade operacional, política e simbólica dessas organizações.
A crítica ao confronto armado não é apenas teórica. Observa-se que os líderes do crime raramente estão na linha de frente. Frequentemente integrados a estruturas empresariais, jurídicas e políticas, operam à distância, protegidos por camadas sucessivas de intermediação financeira. O resultado é um ciclo de violência que se renova na base, enquanto o topo permanece opaco e intocado.
Inteligência financeira e o desmonte das estruturas do crime organizado
É nesse ponto que a asfixia financeira se consolida como estratégia estrutural de longo prazo. Seu foco não é o indivíduo isolado, mas o sistema que permite ao dinheiro ilícito circular, ser ocultado e reinvestido. Essa abordagem envolve rastreamento de ativos, bloqueio judicial de contas e bens, quebra de sigilos bancário e fiscal e cooperação interinstitucional e internacional para localizar valores ocultos em paraísos fiscais ou movimentados por meio de criptomoedas. A identificação de empresas de fachada e de beneficiários finais funciona como ponto de ruptura dessas redes.
No Brasil, a Operação Carbono Oculto expôs com clareza esse mecanismo. A partir de apurações financeiras, foram identificados ao menos 40 fundos de investimento ligados ao Primeiro Comando da Capital, com patrimônio estimado em mais de R$ 30 bilhões. O dado mais revelador não foi apenas o volume de recursos, mas o ambiente em que eles circulavam: o mercado financeiro formal. Esse deslocamento do crime para estruturas financeiras invisíveis e altamente sofisticadas não é exceção, mas parte de uma lógica recorrente de organização do dinheiro ilícito, analisada em detalhe em As Cidades Invisíveis do Dinheiro: Onde se Escondem as Fortunas Ilícitas.
Quando a violência visível ocupa o centro do debate público, enquanto as engrenagens financeiras permanecem preservadas e pouco questionadas, a barbárie deixa de chocar e passa a ser normalizada – um processo que ajuda a explicar por que a sociedade tolera soluções espetaculares e ineficazes, como discutido em A Naturalização da Barbárie nos Torna Cúmplice da Própria Crueldade.
Em diferentes países, experiências semelhantes indicam que o combate financeiro ao crime produz resultados mais duradouros do que ações baseadas exclusivamente no uso da força. É preciso neutralizar a engrenagem financeira que sustenta essas organizações, impedindo que o lucro do ilícito se converta em poder.
Em última instância, seguir o dinheiro continua sendo o caminho mais seguro e duradouro para enfraquecer o crime e fortalecer o Estado de Direito.▪️
Ruído Bom • Menos ruído. Mais entendimento.
