Parasita: quando a desigualdade mora dentro de nós

Uma leitura do filme de Bong Joon-ho sobre identidade, ambição e os efeitos psicológicos de viver em uma sociedade profundamente desigual.

Quando o Parasita venceu o Oscar de Melhor Filme em 2020, boa parte das análises se concentrou em sua crítica à desigualdade econômica. A leitura é correta, mas incompleta. O filme não fala apenas sobre ricos e pobres. Ele investiga algo mais profundo: os efeitos psicológicos de viver em uma sociedade estruturada por distâncias sociais quase intransponíveis.

A força da obra está em mostrar que a pobreza não afeta apenas a renda. Ela influencia autoestima, percepção de valor, ambição e até a forma como o futuro é imaginado.

A família Kim vive em um semiporão. Não é um detalhe estético. Eles estão fisicamente abaixo da cidade, observando o mundo por uma pequena janela. Veem o conforto, mas não pertencem a ele.

Nos estudos de psicologia social, isso é descrito como privação relativa. O sofrimento não nasce só da falta de recursos, mas da comparação constante com quem tem mais. A literatura da área mostra que é possível sobreviver com pouco, mas torna-se mais difícil quando o pouco está sempre em contraste com o muito.

É essa dinâmica que move os personagens. Eles não querem apenas dinheiro. Querem pertencimento.

Quando entram na casa da família Park, os Kim atravessam uma fronteira simbólica. Pela primeira vez, ocupam um espaço que sempre pareceu inacessível. A mansão, ampla e silenciosa, funciona como ideal de sucesso. O semiporão, apertado e úmido, como sua negação.

A ascensão da família acontece por meio da construção de novas identidades. Cada um assume um papel social cuidadosamente elaborado — professor, terapeuta, motorista, governanta. Não se trata apenas de fraude. Trata-se de performance.

Isso levanta uma questão central nos estudos sobre identidade: quanto da identidade é expressão genuína e quanto é adaptação às exigências sociais? Em sociedades altamente estratificadas, todos desempenhamos papéis. A diferença é que, para os Kim, esse desempenho deixa de ser escolha e se torna sobrevivência.

O filme também desmonta a ideia de que sucesso e fracasso são apenas mérito individual. Os Kim são inteligentes, criativos, adaptáveis. Em vários momentos, parecem mais competentes que os próprios Park. Ainda assim, continuam presos a uma posição da qual não conseguem escapar.

O filho projeta um futuro simples: trabalhar, enriquecer e comprar a casa para libertar o pai. É uma fantasia de reparação.

Esse tipo de construção mental é conhecido nos estudos psicológicos como pensamento compensatório: a mente cria um futuro idealizado para suportar um presente difícil. Uma tentativa de tornar o sofrimento atual suportável através de um cenário futuro de resolução.

Essa lógica não é exclusiva do filme. Ela aparece nas promessas meritocráticas e também em formas de religiosidade contemporânea, onde o sofrimento ganha sentido a partir de uma compensação futura. Não porque exista garantia, mas porque a esperança torna o presente suportável.

A família Park, por sua vez, não é caricata. Não são vilões. São educados, gentis, até cordiais. Mas existe uma fronteira invisível que não desaparece. No filme, ela aparece na ideia do cheiro.

O cheiro funciona como marca de classe. Algo que não se remove totalmente. Um resíduo simbólico da origem social. Mesmo quando comportamento e linguagem mudam, há algo que permanece legível.

Para Ki-taek, isso se transforma em humilhação.

Abordagens clínicas descrevem a humilhação como uma das experiências emocionais mais corrosivas: mistura inferioridade, impotência e exclusão. Quando reiterada, nasce o ressentimento.

O ressentimento é o motor silencioso da tragédia de Parasita. Não é apenas a pobreza que destrói os personagens, mas a sensação persistente de que seu valor nunca será plenamente reconhecido.

O porão secreto da mansão amplia essa lógica. Ali existe alguém que não participa nem mesmo da disputa por mobilidade social. Enquanto os Kim ainda tentam subir, o homem do bunker representa os que foram completamente apagados do jogo.

O filme, então, nos convida a uma última reflexão: quanto das nossas ambições nasce de desejos genuínos e quanto nasce da dificuldade de aceitar o lugar de onde estamos olhando a vida acontecer?

A promessa de que qualquer um pode chegar ao topo agrava essa tensão. Porque a escada existe, mas sua geometria não é neutra. Alguns nascem no último degrau, outros no primeiro e muitos passam a vida inteira tentando subir sem perceber que a distância entre os andares é muito maior do que parece.

No fim, Parasita não é apenas um filme sobre riqueza. É uma reflexão sobre dignidade, identidade e sobre o custo psicológico de viver em uma sociedade que promete mobilidade para todos, mas reserva o elevador para poucos.■

Artigo inspirado no filme Parasita (2019), de Bong Joon-ho. Primeiro artigo da série: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

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